Uma palavra sobre a
palavra vida (1)
Por uma teoria do estado
de exceção na linguagem
No atual
estágio histórico em que pensamento e moral compõem dois lados de uma
única banda torna-se impossível ler, dizer ou ouvir a palavra vida sem
cuidado filosófico – pelo menos para quem deseja ser justo com o
conhecimento preservando, pela busca, a possibilidade de sua realização.
Não é possível alegar ingenuidade sobre a questão quando o termo vida
foi capturado por toda sorte de ideologias, o que exige que sobre ele se
opere uma desmontagem crítica. A disputa sobre o termo vida corresponde
na ordem do discurso ao que para além do discurso se dá com a própria
vida que, sob a palavra, é ocultada. Não querendo reeditar
apressadamente nenhum nominalismo como crítica do discurso, é necessário
hoje prestar atenção se já não estamos vivendo uma nova era nominalista
em que a posse do nome define a posse sobre a possível verdade das
coisas. Quem sabe o que é a vida como uma verdade para além de todas as
possíveis definições? Esta verdade talvez não exista, mas aquele que a
controlar saberá do seu império no tempo. Por isso, muitas disputas
conceituais hoje, na verdade são disputas políticas. Saber é poder mais
uma vez. Hoje, porém, poder, mais que nunca, é dizer. Quem não souber
das disputas ideológicas corre o risco de parar de pensar por conta
própria ao simplesmente aderir a falas prontas facilmente encontráveis
no mercado das crenças.
A vida, portanto, precisa hoje, ser analisada como uma questão de
discurso. A captura da palavra vida - sabem os que manipulam o discurso
ou dele se valem num contexto comunicativo – define a intenção da
captura da própria vida. Da vida enquanto é capturada pela palavra como
ordem simbólica que impera sobre o real. A relação entre as palavras e
as coisas ainda está na ordem do dia. Em outras palavras, quem puder
definir vida, saber-se-á seu dono e senhor, assim dos poderes a ela
associados. A tarefa hoje é reler a palavra buscando entender em que
medida ela se tornou lugar da verdade sobre a qual sempre se disputa no
discurso.
O poder do discurso, entendido como fala pré-estabelecida em nome da
verdade, advém de seu ocultamento como tal. Em outras palavras, fala-se
da vida como se estivesse a falar da própria coisa, e não de uma palavra
que, ela mesma, é já conceito e, como tal, sempre elaborado, re-elaborável
e passível de discussão. A palavra, por mais que se agregue à coisa, que
se diga em nome de algo, não é a própria coisa à qual alude ainda
que as próprias coisas precisem dela para chegar à cultura. Por isso,
nos dias atuais, enganamo-nos ao discutir a vida – este amplo e
inespecífico conceito que vai da natureza à cultura, da mera vida às
suas formas e que como idéia é aquilo dentro do que estamos. Disputamos
quem vence no contexto da crença para saber quem deterá o poder dos que
podem crer (seja no que for que creiam, na ciência ou na religião). A
pergunta a ser feita neste momento histórico é – para além do sexo dos
anjos, da alma das mulheres ou da “vida” dos embriões – se poderíamos
discutir o conceito de vida sabendo que se trata apenas de um conceito
e, assim, ultrapassar a retórica e o desejo de persuadir e libertar a
verdade à qual apenas uma disputa honesta de conceitos poderia nos levar.
A questão seria precisar em que sentido a palavra é usada a cada vez que,
como uma bandeira, é erguida em nome de guerra ou de paz.
Por isso, é preciso falar com cuidado e pressupor o próprio ato de fala
como algo que merece análise. Portanto, usar a palavra vida supondo a
ingenuidade de quem não imagina o seu lugar entre outros tantos
conceitos é má-fé. Não é possível participar de uma discussão sem
demonstrar o pressuposto a partir do qual se fala. Ninguém pode pensar
filosoficamente, ou seja, em sentido analítico e crítico, ou dialético e
crítico, sem definir com máxima exatidão o uso do termo que,
historicamente, se constrói como um conceito dos mais complexos e sobre
o qual as disputas mais acirradas se travam. Supor esta ingenuidade ou
falar a partir dela é sempre a primeira estratégia de quem, cinicamente,
não quer se enfrentar com argumentos, de quem quer afirmar suas idéias
pondo-se como inimputável numa disputa. Quando digo a outrem que sei o
que é vida enquanto ele não sabe, se afirmo que detenho a verdade sobre
um conceito enquanto ele não, estou falsificando o meu próprio lugar
como sujeito de discurso, que se afirma a partir de pressupostos
culturais e formais que organizam o discurso. Se afirmo que sei
imediatamente o que é a verdade, já me coloco como seu possuidor e exijo
uma postura de atenção. A mesma atenção que me esquivo de ter com a
possível postura de outrem. A melhor arma numa disputa em que algum
nível retórico está em jogo nem sempre é a autoridade, mas a ignorância.
Esperto é quem sabe usar a postura do burro como plano de argumento.
A palavra “vida” encontra-se neste lugar especial na atualidade, lugar
que, a qualquer momento, é ocupado por qualquer palavra com a qual se
deseje entabular a verdade. A questão hoje apenas pode ser refletida por
uma teoria do “Estado de exceção da linguagem” por meio da qual se
investigue o modo como se pretende, na ordem do discurso, se capturar a
verdade e decidir sobre ela por meio da captura de uma palavra. O poder
do discurso situa-se na palavra tomada como arma de decisão. Ao
sacralizar a palavra “vida”, afirmando que falar dela ou contra ela é
uma blasfêmia ou heresia, espera-se sacralizar a própria vida à qual a
palavra se refere como se, por meio da palavra, já se tivesse decidido
sobre a coisa.
Apenas uma teoria organizada sob a tese de que a linguagem, como parte
de toda estrutura política, está sitiada por uma ordem que oculta seu
próprio funcionamento, que a linguagem, como o corpo está “capturada
fora”, incluída e excluída como no mesmo mecanismo do estado de exceção,
é que se compreenderá o que se diz e o que se quer com isso ao
pronunciar a palavra vida.
Ela está na ordem que faz do discurso a verdade. Duas posturas são
visíveis nos dias de hoje. A daqueles que ainda enfrentam o potencial
conceitual da palavra, o que se pode dizer por meio dela, ou o que ela
pode significar em relação ao real. Tratam da palavra vida como uma
palavra junto de outras. Compreendem-na como inserida na ordem do
discurso à qual é preciso sempre prestar atenção. Por outro lado, há
aqueles que falam dela como uma exceção.
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