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Esclarecer o Pessimismo
Marcia Tiburi
Revista Cult, Abril 2007


Da Indústria Cultural à industrialização da ética – para pensar o 60° aniversário da Dialética do Esclarecimento e sua atualidade

Quem é capaz de contestar hoje a existência da Indústria Cultural? A crítica que foi escândalo na Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer (1) desde 1947 perdeu seu significado. O texto, porém, mantém um alerta como sinal cifrado a exigir interpretação. Ele se refere ao empobrecimento da experiência (2), decisivo na destruição do sujeito livre. Mais do que uma questão de estética e de decisão sobre as virtudes da obra de arte ou dos meios de comunicação, o problema da IC é um problema de ética, o poder do indivíduo de decidir sobre sua vida que a cada dia escapa de suas mãos.

O Esquematismo ou o pensar igual

O texto sobre a IC, caduco para alguns, ainda é atual. Pelo menos duas de suas questões permanecem essenciais: a do Iluminismo como “mistificação das massas” e a do “esquematismo” do pensamento. Quanto ao primeiro aspecto, a questão é saber por que a aceitação de que há uma IC que adquiriu o valor de lei sobre a criação humana implantou-se com força de raiz no fundamento da sociedade? Que ninguém (ou esta seja a lei apesar das exceções) crie fora do mercado sem visar servi-lo é a prova da mistificação das massas consideradas culpadas por tudo que lhes é oferecido. O artista, se sobrevive como tal, torna-se herói em relação ao todo, o funcionário da comunicação entrega-se à burocracia do processo de repetição de imagens e idéias, o espectador máquina de ver, ouvir e dançar, imita a maquinaria, certo de que encontrou um canto aconchegante no sistema. Desavisado, o que o indivíduo aniquilado em sua capacidade de fazer experiência não sabe - e dificilmente saberá – é que a capacidade de pensar lhe foi roubada e, portanto, ele perdeu a chave de sua liberdade.

A ausência de pensamento reflexivo resulta do “esquematismo” que substitui o pensamento livre. Rodrigo Duarte explica a função do esquematismo como processo pelo qual “uma instância exterior ao sujeito (...) usurpa dele a capacidade de interpretar os dados fornecidos pelos sentidos segundo padrões que originalmente lhe eram internos (3). A função do sujeito de relacionar conceitos gerais à multiplicidade das coisas de que falava Kant foi eliminada. Compra-se hoje o pensamento enlatado. Com os pensamentos prontos a ação se torna repetitiva e igual. A rigor não há mais ação alguma. A inação política ou a ação sem sentido dão a impressão de frenesi, a “correria” do cotidiano. A compulsão a agir, ação que não sabe de seu objetivo, toma conta de tudo. Se não sei o que faço é porque não pensei no que faço, mas já não posso pensar porque alguém pensou no meu lugar. Se “a cultura contemporânea confere a tudo uma ar de semelhança” é o fim da diferença, fim do pensamento, fim do desejo, o que a IC nos vendeu.  

A industrialização da ética é o que está em jogo na IC. Ética não é apenas a forma do comportamento como a moral, mas o modo de questioná-lo. É a ação que se dá em nome do pensamento livre. A ética só aparece se a pergunta “o que devo fazer?” for respondida levando em conta o sentido de toda ação em relação a outro. Se não há ética é porque não há reflexão sobre a ação e nem a chance de refletir sobre. A passagem da “indignação moral” - a emoção passageira e repetitiva em relação ao que, em termos morais, nos escandaliza - à “reflexão ética” é proibida na industrialização da ética. Esta indústria está na base fundadora da sociedade, e claramente associada aos meios de comunicação, à escola, à família, aos poderes executivo, legislativo e judiciário e, infelizmente, mesmo aos intelectuais que se omitem de sua tarefa de esclarecimento. Seu produto inquestionado são valores e jargões que se repetem sem cessar. Infelizmente contra a falta de ética só uma ética mais forte pode vingar, assim como contra a ignorância apenas um conhecimento mais profundo pode ser uma arma.


A industrialização da ética e a repetição


A industrialização da ética se reproduz pela repetição. O que Nietzsche entendeu como a verdade por efeito de repetição(4)
é o mecanismo básico desta indústria. Repetimos seus slogans sem ponderação: “o poder corrompe” diz-se para evitar que todos o queiram, “é preciso ser feliz” diz-se para desviar a atenção sobre o sentido mais complexo da vida, “a competitividade é boa” diz-se com o mesmo objetivo de dominar as relações e evitar a união solidária, forma de poder contrária à violência e à dominação. Palavras sérias como “felicidade”, “direito”, “dignidade” e a própria “ética” são transformadas em meras palavras mágicas sem conteúdo. O poder da Indústria é só o que se confirma: quanto mais repito mais transformo a palavra em marca registrada, aumento seu valor de ilusão.

A crítica abstrata ao pessimismo e o elogio ao otimismo também são elementos cruciais desta industrialização do pensamento e da ação. Confundimos pessimismo com niilismo, achando que o primeiro é a mera negação da vida (que nem o niilismo, como corrente do pensamento, é) e perdemos com isso o seu potencial de alerta. Ou será que a indústria da ética também já nos habituou de tal forma ao que o pessimismo seria o único a criticar? Benjamin disse ser preciso organizar o pessimismo (5), isso significava olhar para o que é péssimo sem simplesmente tornar-se cativo dele. O pessimismo como atenção e alerta da reflexão é hoje uma atitude de cuidado do pensamento com a ação, com a prática. Atualmente é o único caminho para a evolução da discussão sobre a ética.



(1) Adorno, Theodor e Horkheimer, Max. Dialética do Esclarecimento. Tradução de Guido Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
(2) Tema que já era central na obra de Benjamin. Ver Experiência e Pobreza. In Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Escolhidas I. IV edição. P. 114-119.
(3) Duarte, Rodrigo. Teoria Crítica da Indústria Cultural. Belo Horizonte: ed. UFMG, 2003.p.54.
(4) Nietzsche, Friedrich. Sobre Verdade e Mentira no sentido extramoral. In Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1997.
(5) Benjamin, Walter. O Surrealismo. O ultimo instantâneo da inteligência européia. In Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Escolhidas I. IV edição. P. 33.