O
Aborto dos Outros (1)
O
documentário de Carla Gallo “O Aborto dos Outros” é o enunciado direto
da dissimulação com que se trata a questão do aborto no Brasil atual.
Há
motivos distintos para os pronunciamentos sobre a questão do aborto nos
dias de hoje. Motivos formulados como opiniões que, atenciosamente
lidos, mostram-se acobertadores do que realmente se visa com a proibição
legal desta prática tão familiar. Tais motivos devem ser analisados na
intenção de colocar a questão no seu lugar devido, a saber, que o aborto
é um problema das mulheres e que homens e instituições, para os quais o
sexismo – a determinação da diferença sexual em que a mulher é vista
como o “sexo” em si mesmo - é um método de controle, buscam o domínio do
discurso sobre o aborto. Não poderia ser diferente já que o aborto no
modo como é tratado no Brasil atual apenas faz ver o estatuto do poder
na mão – e mais precisamente na ordem do discurso - dos homens contra as
mulheres. Neste sentido, cabe também levar em conta que há para além da
proibição da prática, certa evitação do ato de teorizar em torno do
aborto por parte das mulheres. Homens falam sobre o aborto, mulheres –
com raras exceções – parecem não se sentir confortáveis em defender a
própria causa. Mas é claro que não se trata apenas disso. Deixar que as
mulheres decidam não é uma prática desejável em um sistema patriarcal e
é preciso começar impedindo que falem.
A propósito, o patriarcado é o lugar em que mulheres são submetidas pelo
discurso. Não deve, portanto, ser entendido apenas como um modelo
universal da racionalidade, da ética e da estética que dele decorrem
organizando-se como ideologia, mas como a prática cotidiana desta
racionalidade que instrumentaliza mulheres. Ora, o patriarcado não é
apenas metafísico, mas deve ser visto em seu fundamento ético-político
que se define pela ação contra as mulheres. Assim é que ele se
constitui como o nome próprio da violência que costura um pensamento e
uma prática contra mulheres da família à publicidade, da maternidade à
pornografia.
Dizer contra neste caso é definir rigorosamente que as mulheres
que ainda podem ser subjugadas pela ilegalidade do aborto são as social
e economicamente desfavorecidas. Aquelas que permanecem sob comando
biopolítico, sem supor que possam ser senhoras de seus corpos. Sem
interpretações próprias sobre o que seja seu corpo, sua vida própria,
mulheres pobres são reduzidas à condição de fêmeas procriadoras para
logo depois serem rebaixadas, caso pratiquem o aborto, à condição de
meras rés por terem ido contra a ordem. No senso comum brasileiro vige o
discurso de que a realização das mulheres está na maternidade e na
feminilidade. Quem não obedecer a esta ordem do discurso poderá ser
punida cruelmente.
Que a sociedade se torne mais democrática quer dizer que o patriarcado
cede diante da escolha das mulheres sobre seu próprio corpo. E esta
escolha se afirma em um discurso como reação contra a ordem patriarcal
sexista que até os dias de hoje é mal quisto em várias instâncias deste
Brasil subjugado política e ideologicamente ao patriarcalismo.
Duas formas de silêncio
Mulheres, as verdadeiras implicadas na questão do aborto raramente se
pronunciam sobre ele. Há pelo menos duas formas de silêncio em jogo
nesta questão. Em primeiro lugar o silêncio derivado do comodismo e da
alienação. Um silêncio cultural que define o poder da fala como algo
masculino e, por contraste, “anti-feminino”. Mesmo hoje em dia muitas
mulheres caem na armadilha essencialista, aquela que defende que
mulheres não devem falar demais para evitar a tagarelice de que são
acusadas desde a tradição filosófico-literária. No discurso
essencialista, tem-se que “a mulher” é uma essência não-falante.
Desconsidera-se a formação cultural, histórica e social que constitui o
gênero. Desconsidera-se o controle discursivo que está por trás de toda
definição. Assim é que uma mulher deve calar, como se a fala articulada,
que expõe idéias, fosse contra a natureza das mulheres e não uma
construção jurídico-cultural.
Este silêncio é alienado, ele é produzido. Sua conseqüência é o fato
histórico de que as mulheres como “classe” ou grupo não construíram
teorias, não foram autorizadas, nem se autorizaram a serem teóricas,
cientistas, ou políticas, ou seja, seres que dominam o funcionamento do
discurso e podem exercer poder a partir dele, seja no campo do
conhecimento, seja no campo da política profissional.
Mas há outro silêncio. Aquele que é praticado sem alienação por mulheres
ideologicamente livres do patriarcado. Moralmente descomprometidas, ou
financeiramente livres não precisam responder às suas imposições.
Praticam abortos conforme necessidades pessoais/corporais sem que
ninguém ou nenhuma estatística precise sabê-lo. Não dependem do sistema
público de saúde, não precisam se confessar ao padre, muitas vezes nem
mesmo tem uma vida de casal com um homem ao qual devam prestar
satisfação sobre seus atos. Quem são, o que desejam, como e onde o fazem
é algo que permanece sob o véu da clandestinidade que, neste caso, não é
mais do que o fato da realidade. Clandestina é toda prática possível que
mostra a insuficiência da lei e as contradições da moral.
Kafka no conto “O silêncio das sereias” afirmou que o silêncio das
sereias é uma arma mais terrível que seu canto. Talvez alguém tenha
escapado de seu canto, mas certamente ninguém escapou de seu silêncio,
diz Kafka. Tal silêncio é a liberdade das mulheres insuportável ao
patriarcado. É também sua arma. Infelizmente, no entanto, como arma ele
não está ao alcance de mulheres desfavorecidas cultural e economicamente.
O documentário de Carla Gallo mostra mulheres que são vítimas do
discurso e do sistema quanto à impraticabilidade do aborto, mulheres que
sofrem sob o jugo do patriarcado como se fossem meros animais que
desobedeceram seus senhores.
Habeas Corpus
O
documentário O Aborto dos Outros é, neste sentido, a exposição de uma
reivindicação real do direito sobre o próprio corpo. Ele faz pensar que
a questão do aborto no Brasil deve ser tratada segundo o direito do
habeas corpus. Válido para aqueles que podem pagar por um advogado,
o direito de habeas corpus deveria ser elevado a princípio mais
que jurídico quando se trata da relação entre mulheres e seus corpos. O
habeas corpus deveria ser tomado culturalmente, tornando-se uma
verdadeira ética no combate à apropriação que o patriarcado exerce sobre
o corpo das mulheres. O corpo das mulheres deve ser devolvido às
próprias mulheres. Ou se perdeu no tempo ou nunca existiu o
consentimento para que homens - a sociedade como um todo? - comandassem
corpos de mulheres particulares, seu desejo de ser ou não ser mães.
A
discussão sobre a abstrata questão da vida do embrião presente no corpo
de uma mulher que não deseja desenvolver um feto não passa de elemento
acobertador do controle biopolítico sobre corpos de mulheres. Do mesmo
modo, não podemos mais nos ocupar da discussão que corre no senso comum
e que divide a população entre ser a favor ou contra o aborto
quando na verdade se trata no Brasil de hoje de ser a favor da
legalização do aborto ou contra a legalização do aborto. A
questão da legalização é jurídica e como tal, problema de poder, de
saber quem comanda, quem decide, quem detém a verdade a seu próprio
favor.
Somente a luta das próprias mulheres poderá mudar este estado da questão.
Enquanto isso, alguns homens mais lúcidos porque livres do discurso
patriarcal e percebendo que o tema não lhes diz respeito, associam-se às
mulheres na luta por uma sociedade mais justa.
Mas
somente as mulheres poderão buscar a justiça para si mesmas e para
aquelas que como elas sofrem na coleira do patriarcado.
(1)
Originalmente publicado na Revista Cult 138 |