ÚLTIMOS POEMAS (1)
Helena Schopenhauer Borges

mais poemas


Fracassos

1

Deus se confirmou para mim ontem no final do dia
Apertei com força o chão e os mortos gritaram com medo

Eu que devia ter o que perguntar
Só esmagava as cabeças aquosas
Sobraram as pedras
usei para tapar a janela.
Ajoelho olhando para o muro do meu quarto
Porque meus pés correm famintos do meu corpo
Nos vincos entre as pedras passeiam besouros pretos
Enquanto os joelhos sangram
Eu penso em algo decisivo como a parede se amontoando sobre o chão
algo que não seja eu a vacilar entre tormentos.


A menina canta me chamando para ninar e
Eu, perdida, nas horas e nos dias,
Copio na mão esquerda com a unha preta de pó do inferno
Um desenho invisível
Nestas vozes que me chamam para longe eu percebo
Cores e remorsos
Infortúnios e a sinceridade avassaladora dos que sofrem
Queria voltar à casa
ter quinze anos e não precisar
Carregar o imenso céu sobre a cabeça
Vomito o mundo pelos olhos
Amorteço os braços com as palavras
Como meus cabelos
como o gato que se lambe
A dor de ser rato não cessa
(...) (2)



2

Os mortos estão espalhados pelo chão
Cabeças esgazeadas
Não deixam que eu veja seus olhos
Uma moça passa com seus cabelos brancos de velha e me dá duas bolas de gude azuis
reluzentes
Ela mora comigo há anos,
Seu nome é Luzia


Deixo-a quieta num canto
Não perguntarei seu nome jamais
Está calada entre os vidros da janela
E faz ar de atriz de filmes trágicos
Morreu, mas está aqui, espalhada pelo chão
juntando as bolitas transparentes


tem tantos olhos de mosca


Fomos ao cinema um dia
Há muitos anos
Um homem pegou-a pela mão
Eu saí correndo da sala
Com as pernas trôpegas de susto


Um cheiro de carne podre exala da janela
Tapei-a com as pedras caídas do muro



3

Se a janela estivesse aberta
Haveria sol
(...)
E sua memória não bastaria como uma colher de sal
Fingida de gargalhadas
(...)
Algo que foi ceifado

Deus está comigo
Nasci pensando nele

Há poucas horas.
Não tenho mãe, nem pai,
Nem filhos,
Sou só,
Os besouros pretos nas paredes, os tijolos, a janela tapada,
Francisco, Marta, Luzia e Tomé,
Todos estão aqui comigo
E pedem que eu saia logo, antes do incêndio.
Eu dou de ombros
Vou me preocupar com a vida?

O martelo não cessa, vou arrebentar o muro, ou minha cabeça.


4

É escuro mais uma vez
Os ratos chiam nos cantos
Desconhecem o silêncio
Ora, o que poderia conhecer um rato?


Tenho uma vela apagada ao pé da santinha

É santa Luzia com os olhos na mão


O negrinho do Pastoreio veio até mim hoje
Não quis ficar
Disse que voltaria
O pobrezinho não teve mãe
Eu não tenho mãe,
Cuido da Luzia

E dos ratos cinzentos
A chiar

Dou-lhes o leitinho quente que me trazem de manhã
Os que ficam lá fora para me trazer o leite

Luzia me disse que são maus
Mas que sabe Luiza da vida?

Ela que fale sozinha



5


Os ratos falam sozinhos
Todos aqui falam sozinhos

Eu não
Eu escrevo
Não converso com esta gente louca
Que quer me enlouquecer

Meu pai
que eu não tive
É Deus e só ele

O escuro da noite é mais fácil
Quando se conta a Deus
(    )

Como ontem

Hoje
Hoje (3)
Ontem se repete, como hoje.

(   )
Meu pai saiu de sua luz e veio dizer-me as verdades neste escuro, me pediu para não escrever os segredos do juízo final, segredos são sinais seguros das verdades, disse-me o meu pai que é um grande vento gelado

Prometeu-me levar ao sonho nesta noite para que eu saiba de outros mundos

Disse-me que leia os livros e espere a vez.

(   )


Sei que é mentira
Aceito-a.


6

Aqui é a casa onde nasci
O útero onde fui gerada
O túmulo no qual estou morta
O corpo do qual sou cadáver

Estampa-se o céu sob meus olhos
Vejo o tamanho de uma pata de um grande bicho
Meus olhos são dois tigres famintos
Sinto aquecer-me as mãos de fome
A fome não é minha
É das vozes que choram


Me escondo sorridente.



Niilistas


1

De posse desse chão sob os meus pés
Vejo a alva,
cabelos extremos, espelhos
(...)
Onde decoro o ar aqui envolto em lâminas
Brumas, diria a outra, com seu memento eterno
A vida

Rio, ouvindo o ranger dos dentes da alva
A que nos espera, eu e cada um
Até tu,
Tu,
não penses que tu não serás o que veio e irá (4)
É bom encontrar o teu consolo
Para ouvir melhor o ranger dos dentes
Fino como a noite a devorar a luz
A luz é que se pinga como e uma goteira em teto de zinco
Os ratos no colchão renovam a vitória da ignorância
Eu gemo um pouco
Depois fujo
Finjo que gemo e que fujo
Agonias me limitam
Esqueço, reenvio o que não fui ao fim de todas as coisas
Elas mesmas


O que são?
O que não são


Eu, eu, eu,
Uiva o cão ao passar pela labareda que lhe chamusca o rabo ferido à sarna
É meu pai quem me olha

A alva recolhe lágrimas como grãos de milho para as pombas
Quando será o sinal?


2


Água sobre a cabeça
Voz escura das coisas vívidas
sementes dizimadas
O homem que grita morto entre as paredes
Veio pedir perdão a quem amou
Não posso ajudá-lo


Arremeda a si mesmo
Acende um fósforo para pedir ajuda,
Para a doença que não entende


Do escuro acena tristemente
E me concede um cálamo
Não sei o que é.
Aceito-o e risco a parede.


Ele grita sufocado
O nome de alguém além do que vemos
É cerne
Volta e arremesso
Da própria vida
Escalo com meu medo a montanha vizinha,
Além da janela
Espelhos, remorsos, venenos, ar de coisas assassinas.


3

Meu pai aparece-me todos os dias amontoando suas vísceras na janela,
As tripas mal-cheirosas de quando morreu
Usa as mesmas.

Minha mãe aparece-me raramente,
Diz-me volte para casa
E veja seu pai morrer,
veja-o rápido, antes que se apague.
Esforço-me com o carvão, mas não sai nada parecido com o rosto que conheci
Os olhos esbugalhados, os lábios curtidos de sal grosso, as orelhas grandes, sempre cheirando a álcool,
O meu pai bebia  (5)
Bebia a água que escorria do céu, dos olhos, a água dos corpos
Dos copos
Todas as águas e nelas punha cimento
A mistura colocava sobre os olhos,
Os meus e de meus irmãos


Eu aprendi a arranhar as paredes
Para fazer um túnel

Tentei por aqui, mas nada é como na infância
Naqueles tempos em desuso
A abundância da noite esconde
las menudas sabedorias


Um cuerpo entre los otros
Vista del mundo aunque escuro


Mucho lo es muerto
Los otros los mismos (6)



4

La noche


Na duplicidade do crepúsculo
Ouço o que perdura
Escondo-me
Eu mesma e todas que me carregam
Ouço os que falam de La Pampa
Não sei que versos fazem, se fazem,
O poema tem limites, dizem
Ouço porque estou aqui, nada para fazer, só ouço, estou em paz, copio o que dizem
Dizem com pressa e medo


Uma secreta medida desfaz-se em sonhos
Grito,
perco tempo, perco cristais
Perco livros,
Ouço o homem da trampa,
Tropeça nas própria pernas
Diz: donde es la postería?
Não entendo tudo o que diz, mas ouço, ouço quando diz rosas
Inolvidables cosas



Toda a cidade perde-se em desmesuras
Quantas?
Viajo, incompleta de mim,
As pernas deixei entre a igreja e o mercado
Subo sem pernas, com o tempo avançando
Quando teria menos angústia com que forjar este ferro?
Everness
Evighkeit


Esplendores que ninguém entende.
Como as estrelas ancoradas no escuro.
Dizem ser La noche.

5

As paredes suspiram,
Avariadas
Repousam intactas sobre si mesmas.


6

Caem cílios da noite. Debulhados como frutos ao pé da eternidade
O que murchou do paraíso
Compõe-se em medo e silêncio,
As palavras da desventura, do desumano
O que não renasce
Só morre, morre e morre
Em mortes que se refazem de modos sempre ditos e fotografados
o que de mais comum se sabe
é que o próprio rosto é o que nunca alguém poderá saber de si.
Trava-se a guerra há anos, desde antes do mundo organizado
Desenhado no muro deste quarto.
Aqui é que vim morrer,
A guerra não me deixa acabar com nada
Brotam desejos de salvação e os olhos noturnos da morte não move as pálpebras



Eu tropeço nos enfermos desta guerra,
meu pai, minha mãe acenam da janela
os outros no chão escorregam
lodo ao redor de todas as faces amarrotadas em gaze,
dopadas de silêncio para sempre.
Meu pai nunca acenaria se estivesse vivo
olha mesmo assim para o lugar nenhum como fazia antes destes tempos expressos
Seguir respirando é mais que a ordem do que vejo
As asas estão por aqui
Vou colá-las aos pés.

 
7

Sonhei que voava
Eu sabia que não era sonho,
Mas a velha que aparece nas quartas feiras à noite avisou-me que era sonho
E que sonhos ensinam
E valem como a vida
A velha nunca me deixa morrer,
Diz-me: és muito jovem
Eu lhe respondo
Mais de quatrocentos anos
Pesos eternos sobre os ombros
Gramáticas acumuladas
Dores de parir o nada
Os vultos me olhando pelas costas
Mas a velha tem razão.
Se eu tivesse menos medo não estará aqui.



No vôo
Eu caia com as mãos para o alto,
O diabo na palma tatuada, (7)
Eu mostrava a Deus, no céu, sempre livre de todas as sensações.
Não é o que me disse o padre que prega o sofrimento de Deus com os pecados dos
homens
Eu me envolvo nas folhas de árvores
Arremesso com as mãos,
as mãos é o que eu jogo longe
Depois tenho sono
Em dias de angústia extrema eu não durmo
Abre-se a porta e uma mulher muito gorda manchada como uma vaca me traz um remédio que me descansa por todo o descanso do mundo.


8

Vim para avivar a sua sorte
Evitar que seu sangue contamine a água do rio
Azul é a cor da angústia de que minha mãe se ufanava tanto
Falando sozinha
Hoje quem fala sozinha sou eu
As paredes são as mesmas só o desamparo envereda por outros cerros


Crescer é tornar-se o defeito do pai e da mãe numa só pessoa
Minha sorte é ser várias,
Nunca estou só
E quando percebo o número da monstruosidade que enceno
Caio sobre meus próprios joelhos e rezo
Deus, me ajude
Eles me ouvem,
Entendem?
(...)


Não sei com quem falo
Falo com os que se desprendem das paredes
Havia tijolos soltos e eu joguei pela janela
Para evitar que novas paredes crescessem ao redor
As sementes da dúvida morrem na terra úmida
Aguardo o som balançante
Que chega nos dias de chuva
Tudo é água, a de beber e a de verter

Eu recolho com as palmas em concha
Tudo que verteu
Esvazio os abismos
Os loucos desta casa vêm cobrar uma postura
Eu mando-os aos mortos.
Vão teias de aranha,
Vai enfado,
Vai gangrena
Vai torpor
Desce a escada
Eu não desço,
Eu tenho medo de mim mesma.

 
9

Minha mãe apareceu à janela
Trazia a vara de arremessar contra os pássaros
Meu pai tinha uma funda
Era viva e gélida
Estava com os dedos tortos
Avivei o fogo
(...)
Ele apareceu com o dedo em riste
Pedi que guardasse suas rimas
Ele sucumbiu ao próprio dia



10


A Rainha Margarida deitada sobre seu esquife acorrentada
aos próprios cabelos
Alguém cuidou de trançar os fios soltos do vestido com os fiapos que lhe caem da cabeça
A rainha ricamente ornada em sua morte iminente
Está morta
Viva, dizem seus inimigos.
Dorme como antes de ter nascido,
Morta, defunta, amena, ciosa, calada, com a boca fechada e os pensamentos para sempre extintos.
Move-se lentamente como se águas a fizessem flutuar, enganou-se quem disse que é imóvel a morte.
A gravidade estancou ao seu redor
Alçam-se suas sombras sobre o corpo
Esperam que o vulto acorde
Não haverá dia depois do que ali presenciamos
Estamos preocupados apenas com sua dor
(...)
Mas ela se move e deixa seus olhos brancos à mostra
Os dentes poucos revelam-lhe a idade
Antiga e remota
Fosse viva seria um fantasma
Dos que vêm assolar com infelicidade
Um dia que nem tempo teve de fazer memória.


 





(1)  Chamo provisoriamente Últimos Poemas ao grupo de textos produzido por Helena no ano de 1977 até o dia de seu suicídio. Hoje, dia de finados, 2 de novembro de 2006, tive tempo de abrir mais uma parte do material e descobri uma coleção, ou um arquivo - como foi tratado pelas professoras de Livramento. O conjunto é de mais ou menos 130 folhas de papel pardo, folhas de papel branco pautadas como as de cadernos, há muito de papel manteiga daquele que se usava para enrolar pão, todas com poucas exceções escritas a mão em ambos os lados, como sempre, de textos que, mais que confissões, são, evidentemente, poemas. Um dia talvez eu venha expô-los já que o conjunto é em si original e faz lembrar os papelotes e fragmentos em folhas soltas com escritos de Joseph Beuys que vi há poucos anos na Tate Modern em Londres. Se Helena soubesse que se tornaria uma artista tão ao gosto do tempo presente talvez não tivesse se suicidado como o fez, talvez a imagem de um belo futuro, aquilo que se forma por obra do que muitos chamam esperança, certamente o que lhe faltou, tivesse lhe permitido vislumbrar da vida mais que o sofrimento. Prima pobre da estética de Louise Bourgeois, o que temos dela são estes destroços paupérrimos cuja parca beleza, todavia, conservada, talvez tenha algo a nos legar hoje.  Bem diferentes dos anteriores, trazem a marca de alucinação e lucidez aqui confusas. Talvez seja efeito da confissão em forma de prosa. A qualidade estilística é inferior, num sentido que agora não cabe esclarecer, à Festa do Casamento e ao Na Minha casa de Brancos. Revela outra Helena, a Helena concreta padecendo num hospício com certa consciência de sua solidão e psicose. A hipótese da psicose, porém, não foi comprovada por nenhum dos documentos e prefiro seguir deixando-a de lado, não faria diferença na análise das obras, já que entre arte e loucura estão confusos os fios que as separam e unem.

Apenas o ano está anotado, nem o mês nem o dia como é comum a quem escreve. Imagino Helena que nem sabia de si, saberia ela do tempo em que escrevia? Se soubesse do tempo teríamos motivos para dizer que não fosse louca. Copiei os textos dando-lhes o formato mais próximo dos originais, nos trechos ilegíveis deixei os parênteses demarcando. Nomeei-os Fracassos, Niilistas, Oníricos, Insones, Cármicos, Estóicos, Sinais, Promessas, Românticos, Hereges, por afinidade de temas. São meros nomes onde tento classificar sua escritura. Optei por transcrever estes textos antes de outros para que os leitores tenham desde já uma impressão dos tempos finais de Helena. Aos poucos espero concluir, em meio a tantas outros afazeres, esta atividade de puro dever intelectual e poético. Um dever poético? Coisa estranha em nossos tempos, mas se não preservarmos a poesia como um fóssil raro, o que será de nós? O que será de nossa imaginação, quem nos protegerá das sombras que invadem os sonhos e devoram sorrateiramente nossos fígados? A poesia é uma forma de saúde e os textos de Helena, aqui reescritos servem para combater sua morte injusta. Que os poemas não mereçam a mesma sina.
Certamente não me iludo que esta série de últimos poemas possa dizer mais da autora do que seus primeiros poemas, mas por mera atração ao ato fatídico que concluiu sua vida e para que possamos pensar do fim para o começo, vetor que a vida em si mesma não nos possibilita, apresento os Fracassos e os Niilistas.

(2) Usarei este sinal (…) quando houver trecho ilegível.

(3) Ambas as palavras aparecem riscadas como é comum em outros versos.

(4) Este verso, além de riscado, encontra-se repetido em outros trechos em forma de anotação lateral. Também há em duas páginas de mesmo papel e lápis, muito pagado para ler na íntegra, a cópia de uma oração, misto de Ave Maria com Pai Nosso. Imagino que ela tenha copiado a oração para lembrar ou ainda, pelo esmero caligráfico do texto, que o fizesse para passar o tempo.

(5) Outro dos versos riscados.

(6) Tais versos estão escritos em espanhol. Não os traduzi, pois isso transtornaria o significado da obra. O que fez Helena escreve-los nesta língua em vez de em português é questão que ficará em suspenso.

(7) Igualmente riscado