SINAIS (*)
Helena Schopenhauer Borges

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1 .

Ave, ave, ave,
Ave
Ave
Ave

São as aves que caem do telhado como o peso do mundo
Cabe na mão o que não causa avaria
O peso do mundo
Não causa
Nada que eu não deva suster
Com dois dedos
Com dois dedos
Os dedos da mão

2.

Um olho e outro
Tudo é verde no meu sono santo
dia e noite acordada
Eu canto
Eu canto
Eu canto

3.

Dez semanas de silencio e dó
Nada que seja mais que um vento a incomodar o anjo
Nada que saiba ser mais que um desejo e ter silêncio em dobro
Nada que veja por mim entre os dedos
A mão que esquece onde estou
Os dentes evitando o medo
O silêncio vendo o inteiro
Espanto e larvas de morcego entre meus dedos

4.

Cada dia, cada morte, cada anoitecer
O ateliê da morte é onde eu moro
O ateliê dos que não têm dedos
Onde me escondo o tempo todo
Onde devo me esquecer do medo


5.

Acaso a xícara sumisse
E deus vendo um sinal
Enviasse um copo de água
Para os que têm sede sob a terra
Deus?
Onde andará o moço que nos mente o dia todo
Deus, menino, deus menino,
Responda-me, responda-me


6.

Agonia
As palavras vão passando
Pego uma palavra como uma lagartixa sobre a pedra
Cravo-a com a língua no papel
A saliva


7.

Contei os tijolos da parede
Contei as noites e os dias
Contei as formigas
Contei os fios de cabelo,
As unhas
As rugas e os riscos de minha mão
Rasguei-me inteira para ver de que sou feita
Sou feita de seda e pó
Sem costuras porque sou humana
Não vejo as cicatrizes de onde olho
As cicatrizes estão por dentro


8.

Me costuro viva
Me costuro viva
Me costuro viva
Não me costuro morta
Não me costuro morta
 

9.

Cavo um buraco na parede com a colher
Vem a moça de chinelos de pano perguntar o que faço
Digo-lhe que cavo na parede
Um buraco para ver o outro lado do que há
Não há.

10.

A pedra entre meus olhos
Há de me matar
De dor
Ninguém ouve o que digo
Não digo para que ouçam
Não tenho medo
Não tenho nada a dar a ninguém

 



(*) Este grupo caracteriza-se por aparecerem os poemas soltos nas páginas e folhas onde há outros poemas ou no verso de santinhos como os que serviam de lembranças nos batismos. Eles chegavam às mãos de Helena por caridade das pessoas que a viam muitas vezes rezando na igreja. Soube em minhas viagens a Santana do Livramento que ela costumava rezar na igreja da Matriz e que jamais deixava transparecer problemas mentais. Muitas das pessoas com quem conversei sabiam que ela morava na rua, mas não imaginavam a extensão de sua história.