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ONÍRICOS Helena Schopenhauer Borges |
1.
Preparei o leito
Deito-me pronta para a operação
O nó está pronto para sair
Maduro, quase dá frutos
a raiz é curta
como a mandrágora
um monstro vegetal
que espera ser parido
e virar as costas para tudo o que se foi.
A seiva verde cairá pelo chão
Ácida com seu gosto simples de limão
Minhas mãos prontas
Não terão força de segurar a criança.
A criança é de uma amiga que vinha me visitar
quando era menina
Agora estamos as duas presas nesta casa de loucos
Ela que é louca e eu que sou só uma pobre ressuscitada esperando que Deus se
apiede do meu cansaço
Mas Deus, tem dias que é ruim, como um diabo e nem olha que eu exista
Pros loucos ele nunca olhou
A mim
Devia olhar porque tenho a minha flor desabrochando no peito e se a operação não
der certo
Eu morro.
E Deus precisa ver o rosto de quem entra no céu.
2.
Preparei o leito
Onde vou me deitar esperando os médicos
O bisturi sujo de outros sangues
Sei que abrirão o meu peito
Sem precisar cortar o osso
Virá o animal-vegetal que mora escondido
E que dói no fundo
Não o fundo do estômago, nem o coração, pulmões,
Esses órgãos exilados do resto
O que dói é o fundo
O que não se pode tocar
3.
Preparei o leito
Arrastei a cadeira pra perto
As pessoas da família sempre fogem nestas horas
É que mortos tem pouca resistência para a dor
Eu não,
Porque eu sou a ressuscitada
E mantenho a calma nas horas tristes e alegres
Ontem me visitou o Gabriel com sua espada e um grupo de companheiros com tochas
acessas para iluminar o caminho
Perguntei-lhe se estava cansado
Ele me disse que não trazia respostas, mas uma pergunta única
Eu disse que não tinha mais ouvidos
Ele me avisou que estava tudo perto
Mas que eu precisava responder a pergunta
Eu avisei Não tenho ouvidos, meu arcanjo,
Ele retrucou que era preciso ouvir
Eu mostrei-lhe o lugar das orelhas que estava vazio
Ele me pediu que baixasse a cabeça
os homens puderam as labaredas nas minhas têmporas e eu sai escutando.
A operação começará cedo.
4.
O carbúnculo é grande e verde, todo verde, vermelho e amarelado como uma romã
apodrecendo.
Mostro a Gabriel ele me diz que a cor é boa.
5.
Chega o médico vestido de preto.
Eu me assusto
Meu coração dispara
Nunca vi quem não se vestisse de branco.
Ele me avisa por trás dos óculos que não devo ter medo,
Nem toda operação tem a mesma cor.
Me aplica uma injeção e eu sinto um pó corroer minha língua.
Os outros ao redor consentem como se julgassem.
Eu durmo, mas ouço tudo, assim como o movimento de extração.
Nasce de mim uma menina gordinha, em suas costas está colado o carbúnculo
Os médicos levam-na embora envolta em uma toalha branca.
Não vi o seu rosto.
6.
Deixam a outra que é puro carbúnculo, o
carbúnculo verde, meio carne, meio vegetal dentro da pia.
Uma moça que não estava ali vem dizer-me que devo regá-lo duas vezes por dia. As
flores serão coloridas
Será mau se a cor for branca, bom se forem negras
Ela abre a janela e salta.
Um pássaro passa longe e pia estranhamente.
7
A velha francesa e gorda vem me trazer a roupa de princesa
Pensa que falo sua língua
Tranca-me no quarto vazio
Descobre que sou de mentira
Dá-me uma roupa de velha
A roupa é larga
A cor de pele rosada
Pelas janelas abertas vejo pessoas nuas passando
Eu estou nua, mas vestida pela casa.
Do lado de fora, um homem gordo com um sexo de elefante contempla a paisagem
Eu sei que os nus virão e eu estarei nua para sempre.
8
Os homens correm atrás de mim
Eu despenco por todos os lados do castelo
No caminho da queda há um homem tocando seu violão
Fuma o moço, e é bonito
Eu me viro para as fotos e caio no fundo
O abismo acabará um dia?
Explico à minha mãe que eu precisava me jogar.
9
Quando acordo
Vejo o céu quadrado
As portas avançam até onde estou
Eu que sei que portas não se movem
É só ver o que não existe
Vomito todos os dias
O vômito da noite é mais seco que o que vem pela manhã
Meus dentes são amarelos de tanto ácido
As portas não param de avançar por isso
Eu corro
Para chorar longe a morte do meu filho de dezesseis anos que eu não conheci
Por que tinham que matar o garoto?
Nem lhe deram chance de se defender
Eu e todos os meus assassinos
Os que guardam o segredo porque são túmulos
Os que contam os segredos porque tem pena de si mesmos
Essa gente ainda vai acabar comigo
Os que vêm com as palavras adocicadas cheias de formigas
E falam, falam sem parar.
As portas não param de se mover
Eu grito como as sereias surdas
Meu pai acorda-me todas as manhãs em que me lembro dele
Já não é capaz de virar a ampulheta do seu quarto escuro
Eu aperto as mãos procurando calor
É frio no pampa
Não há água que nos refaça a vida no corpo
Só o frio há de nos calar