|
INSONES Helena Schopenhauer Borges |
Insones Canto amaldiçoado em ré menor Páris, Como sofro longe dos teus olhos descansados Eu viveria em teu túmulo Se deixassem que eu fosse a terra a proteger teus ossos do frio. Me guardam o dia todo dentro de um vaso de lama e moscas voam ao meu redor Guardaria teus olhos de vidro dentro de um copo de cristal Olharia para eles todos os dias antes de dormir Rezando atrás das vozes inéditas das borboletas Choraria Sabes bem que eles me trancaram longe de tudo o que posso ver Nem a ti Com quem me casaria Em silêncio E para sempre hoje sonhei com tuas mãos abrindo a janela e vindo salvar a tua amada. 1. Inventei um jeito de sair do tempo Com o relógio da parede Foi só arrancar os ponteiros Estavam parados e era preciso limpar com força e vontade Lavar cada número com um pano molhado Não havia água e eu usei saliva Não ficou muito limpo Deu para apagar a memória Era o mais importante Agora que não tenho mais passado, terei futuro? Desde que estou aqui com minha janela quadrada e os que passam para todos os lados o dia todo como loucos sei que estou fora do tempo Quem ainda precisa disso? 2. Maria Amélia está sobre as asas, barriga para cima, gorda e seca E se pudesse me ver veria os olhos arregalados As asas seriam mais leves Eu esperaria sem vontade de sair Do teu campo de visão Entre uma parede e outra, Entre os tijolos O pó e o pó 3. Disse-nos o homem que é ao pó que retornaremos Eu não vou esperar o apocalipse Não quero ver meus dentes sobre a terra Nem a faca sobre o mármore explicando o fio de sangue Não quero ver onde fui com os dedos apertados esperando que me atendessem as preces Eu que já acreditei em deus Agora Acredito nas múmias e nas cartas que dizem o futuro E o escuro passa tapeando o meu campo de visão As sementes do inverno acrescem-se de dízimos Homens se mabarba vem despertar os não domridos É o tempo da noite Que se planta e se resume a ver e ver Por todos os lados evitam nosso olhar Evitam ouvir Evitam saber que entre o céu e nosso lar há somente a erva das sepulturas 4. Quando viajo entre os terrenos baldios da memória O que vejo são paisagens de sangue Meu pai de olhos estalados Solto de seu pescoço As mãe justifica-se sobre a pedra E os irmãozinhos saltam uns sobre os outros como se nada tivesse acontecido Vem os homens de preto com as capaz de lã, Advogam a porópria pele e o direito de usufruir sobre as filhas dos pobres Derramam sobre elas a lama da morte Eia, Aqui tudo é deste reino Ninguém se confunde, ninguém teme os fins e o sincero veio por onde escorre o veneno de todos conhecido Minha mãe ri para mim do outro lado do inferno Eu grito, Mãe, o que fazes aí? Ela apenas sorri A dobrinha do sarcasmo não abandona seus olhos claros Eu vejo que me acena com uma vara de vime e os caniços à beira da água são de outro mundo Digo-lhe, mãe, foste encerrada Estas enganada Estás com medo? Repete-se a frase por muitos dias E nenhuma resposta resvala daqueles olhos 5. Há morte e luz nos dedos de Paris Me faz acordar a noite toda e rever seus contornos Para que não se vão. Espero cativa de seus gestos Dos sons que emanam de seus moveres Silenciosos Acordes Levitam sobre meus pés os meus corpos todos, todos os corpos que conhecem Paris Todos os corpos que ameaçam fugir quando Páris não está O que dizer a Paris para que fique e colha a eternidade como sempre fez? Antes que Maria Amélia recolha-os para o fim do mundo.