A FESTA DO CASAMENTO
Helena Schopenhauer Borges

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1

apaguei meu nome entre as pedras na calçada 
os olhos viraram duas vezes buscando o sul
antes que eu imaginasse a festa
que suspirasse com os poetas
saqueei a raiz do que vivia 

eram duas vezes 
as pedras abandonadas
não mais que duas

duas, eu contei.

um homem pediu dinheiro em troco 
ou que pusesse pontos entre as frases
eu, que só carregava o que não sei, e uma agulha
escolhi
bordei-lhe um redemoinho na lapela

ele me devolveu a vida com perguntas: de onde veio, ó menina das ruas? 

eu gritei, 

de púcaros inexatos, porém cheios, 
foi de onde eu vim para amarrar sapatos de mendigos

e escrevi a letra lâmbda sobre a mão esquerda do morto

bordada era a validade e a veemência desta sina

a pele dos mortos é grossa, 
papel, lona, 

azulejo

o morto era alguém parado no tempo enquanto
eu variava de nota
havia o que vivia entre o dizer e o vasto terreno dos dias
ele pedia uma definição, morto como um escaravelho fóssil 
desenho de parede, 

rememoração
algo que bate em cada lado do rosto
e não se ouve o estalo

trazia uma mala e depositava-a sobre os ladrilhos 
percorria-se o agora com empáfia 

a contragosto


2

o casamento foi na rua
entre um sexo e o outro havia a pedra esfarelando
o casamento era sincero
esfumaçado de frios primevos
mesmo neste fevereiro mordaz

havia tempo e era possível contar suas pétalas
que o tempo é uma flor desmanchando-se nos trilhos
eu disse ladrilhos, ó suzana,
eu disse ladrilho,
ladrilho
lá ia a voz inconformada com o a obediência às palavras
e suzana sempre lendo

e seguimos, eu ele ela e o mendigo que habitava junto
o mendigo entre nós, em nossos pés, mãos
o mendigo sem mão
o mendigo com o prato fundo cheio de peixes mortos
na mão que sobrou
a sobra
ela querendo o lugar do morto
eu ele ela o outro e o mendigo, uma família completa
que não se esqueça ninguém

esquecer é o inafiançável 

um pouco de serenidade na garrafa
em vez da vingança

que era a festa do casamento



3

dançamos, eu ela ele e o outro
era o dia dos santos e da descoberta das índias
que não eram índias e ocuparam a nudez com roupas estranhas

ele serviu-se de minha nudez mais uma vez
eu índia
e não
ela gritava entre nós por injustiças passadas
ele nem ouvia, nunca ouviu,
saiu a descobrir o porto inútil onde todos encontraram todos

os mortos

todos, não
eu ela ele e o outro
o rito ficou dentro de mim apalpado como uma fruta passada
em meus dedos
o outro era vivo de silêncio
como simplesmente se há de viver

e ninguém chegara ele também carregando os olhos 

suzana
carregava um copo seguro nas mãos
o mendigo perambulava entre as próprias pernas
os sapatos escancarados,
cadarços

o homem de branco: não minta
dizia-nos
recolham-se
não minta
eu ouvia
ele não ouvia
ela ouvia
o outro carregava um vaso de flores valendo como futuro
ninguém se arriscaria a perguntar ao noivo

se o noivo viria

eu servia meu sexo entre os farelos de sempre
antes que me chamassem de volta
ele não ouvia meu grito
não havia grito, 
as garrafas eram de plástico

na festa do casamento


4


seu pai morreu

não se preocupe
que os corpos são poucos



5

eu carreguei os olhos do morto 
na mão
o morto era morto de natureza, 
a esquerda
nenhum ferimento, 
nem mau trato 
apareciam em sua tez
vermelha de sangue 
inundado de anos
nem a pele era curtida 
de agosto

a dos mortos abandonados ao sol
quando chove

o morto estava ali com seu peso e cheiro
eu velava seus olhos 
a parte ainda preciosa
podiam vendê-los no mercado
eu queria apenas carregar a máquina
como nos filmes de cineastas esquecidos

o morto não se enquadrava nas horas alimentadas com a dor dos dias
os dias, 
estávamos dentro deles,
era preciso falar mais dos dias
- eu arrastava tijolos
para a construção dos muros brancos -
os dias não mentiam, não fingiam,
contornos

dos dias 
eram uma oferta segura
de certezas úteis

deles pendiam as noites e uma verdade que em escuro se manifesta

prometi que em tudo acreditaria
eu ela ele o outro
em deus, 
primeiro em deus 
a ajuda é sagrada
dizia-nos a voz vindo de trás das flores 
salvar o mundo é preciso
contando estrelas e contas
as pedrinhas do caminho
o inventário 
ou outra matemática 
para o morto no dia do casamento

6

eu ela ele e o outro
todos juntos 
segurando as alças

e as flores sérias

lágrimas que faltassem 
na feira

vestidos

em dúzias
dezenas de sóis cinzentos 

uma mulher gorda trazendo bolinhos
de preto

a coroa do rei disposta sobre o cenário
alvo e gélido

o cenário pertence ao tempo inválido do que não foi vivido
senão

um menino corria entre os presentes
chamando para a dança

o morto estava cansado

de si
o pai chamava 
a mãe

e o padre explicava ao noivo sobre o exorcismo



7

o noivo via com os olhos de sempre 
o mesmo tapete vermelho
como um estômago inflamado por dentro

nada poético,
pensava ele com frases

por que vim? de onde vim? o que devo fazer?
íncubos, súcubos prestavam consciência ao tolo rapaz
sereno por fora
após a forja quente do paletó

no pescoço o talho futuro anunciado 
não podia engolir 
o próprio gosto

pediu que parassem de tocar

os músicos afinavam os instrumentos
os instrumentos dos músicos não bebiam a culpa
servida antes do jantar
a sorte de ser um objeto

na lapela o redemoinho bordado destoava
em cores e brilhos
que encantam olhos desocupados

o noivo pedia solução
eu ele ela o outro
neste ponto 
e ninguém



8

quando a noiva à porta
trazia o vestido manchado na borda 
os olhos versados do moço 
trançaram os fios de memória 
todas as deusas vieram 
o veneno do tempo
trazidos
em frascos de vidro antigos 
comprados em arábias distantes a preço de custo
tesouras
e um pouco mais de cimento
com que se tapa o visível
desisto dizia suzana
mudando de nome uma vez

dizendo

ao olhar para o lado sinistro
de luxo e pó
num só motivo

os fatos engasgavam os olhos

os olhos

lavavam as pedras da rua
a água era lenta entre os vincos 
o perfume escaldava os gatos por perto
os outros
compravam arroz no mercado
para a festa do casamento

o casamento de ontem,
o casamento de hoje
o casamento de sempre

cantava suzana que não era suzana
mas leticia
e os olhos versados do moço
cansados
viam apenas os restos
o pó de suzana 
a limpar onde por os pés
de arroz no seu rosto
qual rosto de quem
o seu

laetitia

9

o noivo olhava assustado os passantes 
entre eles 
ele
ele sem ela nem ele nem eu ou o outro
algo vazio por fora
orquestrado em canções 
vadias
como putas 
que se bebem em seco
o seco é o fio fundo da bebida
que todos procuram
quando não sabem
que o que se bebe é 
do copo
o vidro

o noivo avisado
sem verbos
as musas perto a fazer-se de deusas
vestidas a hera
a noiva de vestal 
fingindo 

o noivo olhava as manchas
lágrimas para lavar destinos
escancarados em sombras 
varais
potências
panos
quarar roupa sob o muro 
e ainda assinar os verbos
roupas
panos


a moça ao avançar o tempo
disse
reerga o muro
desenhe os destroços
ó meu noivo 
(olhos de mar aberto, 
peixes em viagem 
trevas abissais)
o mesmo escuro
ó noivo 
corrompe ontem 
o que é servido ao 
vasto
sabes onde é o vasto?
o vasto
ora não 
tonto

o moço aperta seus peitos entre as mãos e grunhe como um lobo de dentes à vista

é o noivo
o padre
ora o padre
ergue o copo e doa o vinho 


o moço noivo e jovem,
lúcido entre seus vintes e trintas
vê passar um sinal pelo céu
gritará as letras como cabelos caídos
(compacto)
um cata-vento abandonado na estrada

siga-me com licenças

abre o bolso 
a faca reluz entre seus dentes
os dentes
eram para morder as frutas do futuro

a lâmina sustenta o ar entre um talvez e outro



10

são cortes
imensos
veias, aves
motins onde o corpo impera 

vejo entre meus seios um talho
um talho que salva meu sangue
meu sangue falso de velas
velas, instante e fato
natureza diversa e abismo

eu vejo
que me lava
ao outro entre eu e ela
lavo o que me seca
e ao outro entre eu e ela
seco o que me cava
e ao outro entre eu e ela
cavo o que me mostra
nunca ao outro entre ele e ela
mostro o que me visa
sem verbos
e ao outro entre eu e ela
em verbos

viso o que me cala
outro entre eu e ela

calo o que fundamenta
algo que posso ver
voz ressecada no travesseiro sobre o livro



11

caleaboca

é preciso recolocar o rochedo
antes que o morto 
escolha onde ficar

são fingimentos de antes
o que lhe trazem
valiosos como ar em garrafas
vendas – as margens
para os olhos – os confins

caleaboca
caliaboca
calia

boca
onde o corpo oscila 



12

aqui onde os mortos ressuscitam
com seus olhos borbulhantes de veneno
é aqui 
que o noivo 
deposita o dom de sua fuga
aqui
ele se deita 
ingrato entre alheios seios
longe do lar austero 
onde vivem os que não podem passar

ele pensa
se o branco da camisa é visível
se os cabelos podem parecer de outro qualquer
pesa o tempo nos sapatos
a vertigem apregoada desde cedo
com um pouco de poeira recolhida nas mãos

vêm-lhe à mente as moças de branco e entre elas a sua
vêm-lhe à mente a memória estampada em flores murchas
das que não podem faltar
o travesseiro da morte
ele carrega sobre os joelhos trêmulos



13


o noivo deita-se entre as pernas da noiva
as pernas vistosas de rolos amenos
as veias lhe pulsam

um jogo lhe vem às mãos
senil entre os rumores da memória ele derrama a baba canina que pensava adormecida
a baba lhe sai pela boca

cale a boca
suzana nos vê 
entre os lençóis diz-lhe a pobre vizinha

e a noiva?
a noiva se comprime e afaga-lhe o cabelo
tem pena de seus olhos aguados, de sua falsa métrica, de seu complexo de anfitrião

do que nele não germina

a noiva, a noiva lhe lambe os pés, quando não vê de que é feito 
o pobre
afoba-se em repetir as velhas rimas, gordas de letras redondas, abafadas pela voz pretérita
regada a ferro
sangue caído


algo que nos pede, a nós que o assistimos, a trégua, 
a branda trégua


a bela trança que enovelasse os destinos

e, todavia, tudo é repulsa afogada em decoro e dó



14

Era dia dos mortos, 
Confusa fica a vida nestes dias
tons de sépia entre negros
Traços apaziguados 
Cabelos 
As secreções respeitosas das moças de família e das outras entre nós ocultas

Minha pele acordou-se sombria
Chamada pela luz
Como um cão que olha para a lua tangendo-lhe a tristeza
A tristeza transformada em mera atmosfera
Em lentidão das formas espalhadas na visão dos descontentes


Um grupo deles, meio vivos, meio mortos, transita pelo jardim 
Um levanta o chapéu com a mão esquerda e acena para longe
Não há ninguém à frente
Ele sabe que o que importa é a esperança de que haja esperança
Além
Ele sabe que as portas estão trancadas com chave e que nem olhos bem abertos serão salvos
E, por isso, descreve mais um dia em seu diário antes de sumir entre os milhares que passam.

A esta altura as borboletas, cigarras e libélulas apareceram com asas transparentes prontas a voar e uma criança com seu vestidinho rebelde ao vento contraria a natureza dizendo “quero viver”.


15.

A velha de cabelos entretecidos,
Dos muitos habitantes deste Hades visível
Que vivia entre um e outro
Avisou que era a hora de contar as crianças

Trouxe seus molhos de chaves e o ábaco de dentes
Carregado pelos dois gigantes de queixo enorme
Usuários de um olho só como as górgonas

Contou todas as presentes

As que carregariam as alianças
As que segurariam a cauda do vestido
As que ficariam sob os pés da noiva engatinhando
Uma devia cortar as unhas da moça de branco
Outra devia costurar com os cabelos as costas do vestido
A mais velha das crianças no fim da fila 
Esperava o sangue menstrual tocar o chão
Era a punição do tempo
Que antigamente se achava deus
Quando não era ele a ser devorado pelos homens. 

As menininhas que sobraram
Esperariam até setembro para outra cerimônia


16

Fora da casa uma outra casa 
E além dela o castelo rígido onde tudo repousa
A mesa onde cortar o pão não anuncia mais que um modelo
Destarte um selo
Dos sete deveria estar aqui
Quase nada arrefece, caleja um som estridente nos tímpanos aborrecidos
A voz das antas amareladas pela fome a desnortear os indecisos;
São eles que entrarão pela porta no próximo ano
Pensando que vieram à missa

Mais tarde uma mulher lê versos alheios de Edgar Allan Poe
Repetindo seu nome dezenas de vezes
Como se faz com o que têm excesso de importância

As calosidades e rugas reafirmam o invisível
Argúem-se entre si os que desejam ficar
Mas é futuro e ninguém chegou até agora.

Erguem-se as cordas de nylon azul, 
Monta-se o circo
Onde todos podem levitar
Vem o prefeito dizer que o tempo é veloz
Tenham pressa
Levante a voz
Peça socorro

A escassez chegou para ficar
Começo do dia.



17

É larga e funda a nossa ira
Vêm das monções a dizer cerrado
Sobre seus cavalos de longos pêlos
Atravessados de flechas negras
A deixar um caminho de sangue 

Atravessam o tempo,
Coisa que poucos podem
Cravam bandeiras de esperança azul nos imos avantajados
Alguém as recolhe e guarda no galpão dos fundos
Não é tempo de guerra
É preciso esperar o talvez das açucenas tíbias

Vem a menina de vestido fúlgido perguntar quais as flores do paraíso
Pega a saia da mãe sempre enroscada no tronco
Pende-lhe a cabeça do pescoço
E entre os dedos um ramalhete seco

Do chão um odor ou lamento
Se ergue como em ação de graças
Tudo está invertido
Além do fascínio e da revoada dos pássaros 

Quem se assusta?



18

Chamo pelo nome de meu noivo, 
O nome de meu marido amanhã
De meu pai ontem
É o que diz a moça que foi salva dos galhos removidos da árvore
Tinha os olhos viçosos,
Hoje carrega-os no peito como um sertão que consome a memória
Guardava-os na caixinha de música
Agora lhe pedem os de voz enrustida que abra, abra, abra

Que os olhos estejam no peito é uma pergunta sem resposta

O coro dos que nunca viram
Levanta-se em pé
Suavizam os tambores atirando o espaço longe
Que cortem as cabeças
Das meninas que insistem em ficar no meio da ilha

Areia por todos os lados,
Algas, saliva da garganta dos que se pensam deuses,
Sinceros sob seus catarros enfermos
Vendendo o verde
Com a agonia nos escrotos
E um saco de rimas a céu aberto

O som espúrio da ampulheta 
Não deixa ninguém dormir
Os que moram sobre as costas deleitam-se no processo da vida
Os que não foram enganados
Um dia a menos
Dois dias a menos,
Anos a menos
O pó prometido 

Um cheiro de chuva como o paraíso perdido


19


Um e outro 
Observam o vaso ao encontro do solo duro
Onde um dia deverá estilhaçar-se em vários
Sinais indivisos
Todas as nossas mortes
As de que somos capazes
As de que somos incapazes

As que nutrimos com leite doce 
As que abafamos dentro da geladeira
As que convencemos de que vale a pena viver

De que serve a vida além das solas com as quais atravessamos a pedra?



20 


Assisto e envolvendo-me à festa do casamento, decido que vou me matar, 
Já estou morto
Infenso,
Demoro alguns dias voltando atrás no tempo
Busco sinais da verdade estampados nas calçadas
Desde o início são as calçadas que me animam a mentir
A cor de cimento, o granito cinza como a vida
Um micro filamento de cristal a brilhar sob o sol 
Arde o sol como em dias no cemitério
Um passar o maldito ecoa sua voz de sino por trás das horas secas
Há um passo a ser dado
Um passo ao inferno de todos e para todos
Eu tenho os sapatos nas mãos e recolho um cadáver de cão no meio do caminho

Levarei presentes para Deus.