DEPOIMENTO DE AURORA DA GRAÇA

 

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São Luís, 20 de dezembro de 2007

Marcia,

Não há como negar. Estamos pressionados pela moderna comunicação e por isso nos rendemos à internet quando se trata de buscar informação. Assim, o interesse por esses caminhos eletrônicos nos leva a mergulhar na pesquisa de temas que nos interessam diretamente e até não. Nesse afã de conhecer coisas novas encontrei seu site de filósofa/escritora e nele uma seção que logo me despertou a curiosidade. Tinha um título diferente e intrigante – Helena Schopenhauer Borges.

A cada repetida leitura eu me encantava mais com os depoimentos e, sobretudo, com os poemas ali publicados.

A mulher Helena Schopenhauer Borges

A biografia de muitas arestas causa choque de imediato. Carece de nossa piedade, compaixão ou até de nosso amor por alguém de destino incerto e de sentimentos ocultados. A leitura cuidadosa dos poemas nos aproxima cada vez mais dessa personalidade esquisita e, ao mesmo tempo, extremamente humana. Os depoimentos – todos de teor muito curioso – trazem à vida essa personalidade já perdida no tempo e no limbo, mas que cai sobre nós pelo viés da poesia e pela sua determinação, Marcia, em trazê-la de volta.

O Projeto Vida e Obra de Helena Schopenhauer Borges

Sua intenção de realizar esse projeto (audacioso e pertinente ao mesmo tempo) incentiva os que gostam de literatura e, em especial, da poesia. Estou tentada a participar deste projeto mostrando o quanto a poesia de Helena S. está influenciando a mina escrita de amadora na poesia.

Meu interesse pelos poemas

Acostumada a ler poesia desde a adolescência fiz disso quase uma obrigação tanto é o meu gosto pelas palavras. Por ela costumo expressar-me sobre o mundo e sobre mim mesma. Dediquei-me à oficina do poema construindo uma poesia sem muita pretensão. Estou certa que a leitura de poetas brasileiros de renome e outros menos famosos (mas de linguagem igualmente bela e profunda), serviram-me de inspiração. Repetiu-se com a poesia da até agora desconhecida Helena S. apresentada por você neste site. Poemas modernos com forma nova e espírito melancólico ou de tristeza profunda ressaltam a inquietude e o inevitável (para ela) desejo de morte.

Minha escrita versus Helena S.

Com tais características, os poemas de Helena S. me propiciaram a reflexão que produziu em mim uma espécie de identificação que, por vezes, me confunde e aparece nos poemas recentes como uma nova fonte de inspiração. Mesmo sendo uma otimista e “aproveitadora” da vida, vi-me tragada por essas imagens de cor cinza que os versos informam. Os sentimentos de Helena S. se introduziram na minha escritura. Este depoimento declara, sobretudo, uma ligação intelectual que me surpreendeu e se impôs de tal forma que eu me deixei conduzir em todos os momentos em que o ato de escrever me impeliu ao estado de espírito inerente a Helena S. Entendo que fui tocada pelo destino de Helena S. Imagino que essa confusão ou identificação pode ser efêmera como é o entusiasmo quando se descobre um poeta que nos encanta.

Marcia, se isto for compatível ao espírito do Projeto, e se for de seu agrado, proponho que publique no site os poemas anexados, o que certamente, me fará feliz e cheia de vaidade (embora este não seja um bom sentimento).

Um abraço,
Aurora da Graça

 



 

mãos vazias

 

Tenho as mãos vazias e trêmulas

e dentro do peito um coração incompleto

pulsando a menos no seu vigor enquanto espera desiludido

que os fantasmas saiam do meu pensamento e eu possa

enfim

não pensar em morrer (a última instância para o que me resta)

 

carrego meu corpo bem devagar

porque não tenho forças de movê-lo

e nesse estado de falência vital

meu ser involuntariamente se compraz com as migalhas

de pão afeto e calor vindos não sei de onde

 

meus passos tropeçam em mim mesma

e meu destino refaz sua trilha de incertezas

enquanto Deus semeia outras ofertas

no meu chão sem adubos de esperança

 

quem sabe agora eu vislumbre em nesgas a realidade

e a luz difusa do amanhecer mostre os contornos dos frangalhos

que representam os horrores que atravessei

e ainda persistem na memória escavada e sem lembranças

 

queria ser um anjo uma ostra ou um inseto

voar ou me enterrar na profundeza das águas de além mar

assim não precisarei mais das migalhas de pão e afeto

eu sei

e tudo o que venha aliar-se à minha vida de penúria e desalento

receberei para juntar nalgum obscuro ponto de meu ser

estilhaço ou laço para findar ou atar minha ânsia pela vida

 

mas viver para que?

para relembrar a infância perdida nos quintais?

o amor que se foi antes de ter nascido?

(um príncipe robusto solitário e sem fulgor)

 

infância de pesares entre o pai mudo e a mãe escravizada

pelos rigores morais e as testemunhas de mando

a infância sem a alegria na memória de visões supérfluas

e inacessíveis.

 

(Au|Graca, 2007)

 







ARREDORES DO NADA

 

Atravesso o dia ávida de sua luz

ato-me aos fios invisíveis para me socorrer das sombras

(mais invisíveis ainda)

as sombras que não posso tocar

porque não ouso me lançar ao movimento

 

atravesso a luz pelos olhos que me emprestas

com eles poderei ver atrás das nuvens

eu - fugindo das sombras

arredores do nada

atravesso o que não vejo

o que me esconde

o que é mais de mim

e não sei

 

atravesso hordas de duendes

que me olham estarrecidos

porque sou apenas a ilusão de mim

 

atravesso o mar de ondas inúteis

para os meus passos de névoa

náufragos sem escotilha

 

atravesso os jardins onde as flores perderam a cor

e as borboletas desmaiadas mais parecem rastros

 

atravesso a noite e seus mistérios

e deles, a madrugada é a grande cúmplice

feita de silêncio e orvalho

 

a madrugada oferece seus braços de vento

e seu coração embriagado aos que estão como eu

prisioneira de sonhos acordados e fadiga

 

quando a madrugada virar dia

por certo encontrarei o ânimo e o tempo das horas dadas

para recolher a palavra que me indicas ao passar

 

e com ela tecer o verso imaginado e sem sentido

e no poema, cravar sem timidez a palidez do sonho corroído

enquanto perdurar a sombra e o alumbramento

antagônicos sinais que movem a travessia.

 

(Au|Graca, 2007)

 

 







ASAS PARTIDAS

 

Meu corpo resiste

submerso na sombra do abandono

que teu olhar desatento me exilou

 

Meu corpo procura

o rumo das vertentes obscuras

para nelas reconstruir com seus destroços

os precários contornos da alma estilhaçada

 

Algo essencial está perdido

a medida do corpo

a lucidez e o travo

a máscara

os laços

a luz

 

Meu corpo perdido de si mesmo

vibra no silêncio a decadência

o aniquilamento

o vôo de pássaro ferido

asas partidas

ampulheta ao contrário

desejos vazados

milagre em vão.

 

(Au|Graca, 2007)

 

 









PRIVILÉGIO DA MUDEZ

 

A mudez é o inferno

o não adivinhar o alvo

o deixar que o não dizer se faça

se contraponha

ao delírio

de falar

 

palavras tem pressa

para incautos e desavisados

fogem da boca como lanças afiadas

para atacar ouvidos que não querem ouvir

 

o que é dito extrapola

causa pânico ou simplesmente dói

 

se propõe

se acalma

ou se ajuda

pode vir pela via torta

do sem limite ou cerca

 

palavras-punhais

retalham

ferem à traição

jogam-se como artefatos anônimos

atingem os desprovidos da sutileza

que emoldura a crueldade

atingem os sobreviventes

da lucidez ou do medo

ou da equivocada transparência

palavras ao vento

às vezes inconseqüentes

mal ditas

palavras sem a medida

exageram e afastam a verdade

 

o que não se diz

deveria ser a ordem

o que a boca fala

deveria ser o som do coração

e não a indelicadeza

o que se diz pode não vir da alma

o que não é dito sim

pode ser o sentido e a intuição

as palavras se desesperam

rompem o que trava a boca

descobrem a fenda salvadora

movem o que está oculto

erram os alvos ou cruzam a linha fatal

do que não deve ser dito

as palavras deveriam ser apenas escritas

e a boca muda.

 

(Au|Graca, 2007)

 

 







TAREFA DE ANJO

 

Se abrissem meu coração

com as facas cegas que não enxergam o sonho

mesmo assim

talvez descobrissem que nas veias encobertas

moram as palavras invisíveis que em segredo

relatam para si mesmas os delírios eloqüentes

cravados em cada sílaba - os delírios da felicidade!

 

se abrissem meu coração

com as facas afiadas que refilam o sonho

veriam pela fresta anunciada

o avesso a que chamamos esperança

e me veriam despojada dos andrajos

com minhas asas de anjo e as mãos abertas

e abarrotadas dos sinais de todas as vitórias

depois de ter cavado nos escombros

das veias movediças que o coração abriga.

 

(Au|Graca, 2007)