| DEPOIMENTO DE AURORA DA GRAÇA |
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Marcia, O Projeto Vida e Obra
de Helena Schopenhauer Borges Meu interesse pelos
poemas Minha escrita versus
Helena S. Marcia, se isto for
compatível ao espírito do Projeto, e se for de seu agrado, proponho que
publique no site os poemas anexados, o que certamente, me fará feliz e
cheia de vaidade (embora este não seja um bom sentimento). |
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mãos vazias
Tenho as mãos vazias e trêmulas e dentro do peito um coração incompleto pulsando a menos no seu vigor enquanto espera desiludido que os fantasmas saiam do meu pensamento e eu possa enfim não pensar em morrer (a última instância para o que me resta)
carrego meu corpo bem devagar porque não tenho forças de movê-lo e nesse estado de falência vital meu ser involuntariamente se compraz com as migalhas de pão afeto e calor vindos não sei de onde
meus passos tropeçam em mim mesma e meu destino refaz sua trilha de incertezas enquanto Deus semeia outras ofertas no meu chão sem adubos de esperança
quem sabe agora eu vislumbre em nesgas a realidade e a luz difusa do amanhecer mostre os contornos dos frangalhos que representam os horrores que atravessei e ainda persistem na memória escavada e sem lembranças
queria ser um anjo uma ostra ou um inseto voar ou me enterrar na profundeza das águas de além mar assim não precisarei mais das migalhas de pão e afeto eu sei e tudo o que venha aliar-se à minha vida de penúria e desalento receberei para juntar nalgum obscuro ponto de meu ser estilhaço ou laço para findar ou atar minha ânsia pela vida
mas viver para que? para relembrar a infância perdida nos quintais? o amor que se foi antes de ter nascido? (um príncipe robusto solitário e sem fulgor)
infância de pesares entre o pai mudo e a mãe escravizada pelos rigores morais e as testemunhas de mando a infância sem a alegria na memória de visões supérfluas e inacessíveis.
(Au|Graca, 2007) |
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Atravesso o dia ávida de sua luz ato-me aos fios invisíveis para me socorrer das sombras (mais invisíveis ainda) as sombras que não posso tocar porque não ouso me lançar ao movimento
atravesso a luz pelos olhos que me emprestas com eles poderei ver atrás das nuvens eu - fugindo das sombras arredores do nada atravesso o que não vejo o que me esconde o que é mais de mim e não sei
atravesso hordas de duendes que me olham estarrecidos porque sou apenas a ilusão de mim
atravesso o mar de ondas inúteis para os meus passos de névoa náufragos sem escotilha
atravesso os jardins onde as flores perderam a cor e as borboletas desmaiadas mais parecem rastros
atravesso a noite e seus mistérios e deles, a madrugada é a grande cúmplice feita de silêncio e orvalho
a madrugada oferece seus braços de vento e seu coração embriagado aos que estão como eu prisioneira de sonhos acordados e fadiga
quando a madrugada virar dia por certo encontrarei o ânimo e o tempo das horas dadas para recolher a palavra que me indicas ao passar
e com ela tecer o verso imaginado e sem sentido e no poema, cravar sem timidez a palidez do sonho corroído enquanto perdurar a sombra e o alumbramento antagônicos sinais que movem a travessia.
(Au|Graca, 2007)
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Meu corpo resiste submerso na sombra do abandono que teu olhar desatento me exilou
Meu corpo procura o rumo das vertentes obscuras para nelas reconstruir com seus destroços os precários contornos da alma estilhaçada
Algo essencial está perdido a medida do corpo a lucidez e o travo a máscara os laços a luz
Meu corpo perdido de si mesmo vibra no silêncio a decadência o aniquilamento o vôo de pássaro ferido asas partidas ampulheta ao contrário desejos vazados milagre em vão.
(Au|Graca, 2007)
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A mudez é o inferno o não adivinhar o alvo o deixar que o não dizer se faça se contraponha ao delírio de falar
palavras tem pressa para incautos e desavisados fogem da boca como lanças afiadas para atacar ouvidos que não querem ouvir
o que é dito extrapola causa pânico ou simplesmente dói
se propõe se acalma ou se ajuda pode vir pela via torta do sem limite ou cerca
palavras-punhais retalham ferem à traição jogam-se como artefatos anônimos atingem os desprovidos da sutileza que emoldura a crueldade atingem os sobreviventes da lucidez ou do medo ou da equivocada transparência palavras ao vento às vezes inconseqüentes mal ditas palavras sem a medida exageram e afastam a verdade
o que não se diz deveria ser a ordem o que a boca fala deveria ser o som do coração e não a indelicadeza o que se diz pode não vir da alma o que não é dito sim pode ser o sentido e a intuição as palavras se desesperam rompem o que trava a boca descobrem a fenda salvadora movem o que está oculto erram os alvos ou cruzam a linha fatal do que não deve ser dito as palavras deveriam ser apenas escritas e a boca muda.
(Au|Graca, 2007)
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Se abrissem meu coração com as facas cegas que não enxergam o sonho mesmo assim talvez descobrissem que nas veias encobertas moram as palavras invisíveis que em segredo relatam para si mesmas os delírios eloqüentes cravados em cada sílaba - os delírios da felicidade!
se abrissem meu coração com as facas afiadas que refilam o sonho veriam pela fresta anunciada o avesso a que chamamos esperança e me veriam despojada dos andrajos com minhas asas de anjo e as mãos abertas e abarrotadas dos sinais de todas as vitórias depois de ter cavado nos escombros das veias movediças que o coração abriga.
(Au|Graca, 2007)
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