CARTA DE MARTA SOARES

 

mais depoimentos  



Querida professora Márcia Tiburi

Que mundo pequeno esse nosso!

Tenho a impressão de que quanto mais eu vivo, menor o mundo fica, são tantas as coincidências que acabo acreditando que o mundo é pequeno demais, pelo menos este,  de corpo presente, em que vivemos. Conheci seu trabalho há poucos dias, sou professora de Geografia e a sensação de proximidade e de mundo ao alcance das mãos  novamente me surpreende. Vou tentar explicar o porquê  ...


Estava ajudando um aluno a fazer uma pesquisa em um banco de dados quando numa pausa para o almoço, e à toa  na frente do computador, digitei Schopenhauer, primeiro nome que me veio à mente, talvez porque ao pensar no que digitar olhei para a pilha de livros que ainda pretendo ler... Pois bem, não é que me deparei com uma tal de Helena Schopenhauer e o endereço que aparecia na página me levava diretamente ao seu site.

Fiquei curiosa com o nome, nunca tinha ouvido falar em Helena. Meu aluno voltou e terminamos a pesquisa que ele precisava. À noite em minha casa aquele nome retornou a minha memória, lá fui eu... Digitei novamente e encontrei seus escritos. Acabei lendo tudo, dos depoimentos aos poemas e eis a surpresa, o depoimento da Professora Luciana Argêntea da Luz. O espanto se deu quando li o nome de Felipe Omar -  um rapaz que fora apaixonado por Helena na adolescência e que pelo que consta foi também a paixão de Helena.

 

Felipe Omar?


Não digo que lembrei  porque de fato  nunca esqueci esse nome. Sempre um mistério. Sinônimo de pessoa amada, a meu ver. Ele sempre esteve em minha memória,  pois foi um nome que estava em
um poema que minha mãe me deu alguns meses antes morrer..O poema chegou às mãos de minha mãe de maneira muito curiosa, meados de 1974, morávamos em Santana do Livramento. Ela tinha o hábito de rezar em uma igreja próxima de casa, disse-me que havia uma moça, negra que freqüentava assiduamente as missas de domingo, mas que nunca havia visto pelo bairro, o que chamava a atenção não era o fato de ser assídua e sim o fato de que sempre durante o sermão, punha-se a escrever até a hora do pai-nosso, desse momento em diante, guardava sua caneta e ficava a contemplar a cruz que ficava no altar, rodeada por uma pintura de santos e anjos. Num desses domingos, minha mãe por coincidência, acabou sentando-se atrás do banco em que essa moça-negra-escritora-devota estava, era um domingo de chuva, e durante o sermão daquele dia, enquanto escrevia, a chuva aumentou e um trovão muito forte ecoou pela igreja, no mesmo instante essa moça parou de escrever, pos a mão no coração, olhou para a cruz e saiu. Saiu muito rápido, deixou cair umas folhas de papel, minha mãe tentou avisar, mas já era tarde.

 Resolveu então guardar as folhas e entregar-lhe na próxima missa. Numa dessas folhas é que estava o poema, todo domingo minha mãe lia para mim, e guardava na bolsa, na esperança de devolver para a devida dona, mas em vão, ela nunca mais apareceu.

Mamãe acabou guardando no fundo de uma gaveta e um dia revirando a procura de alguma coisa o achou e disse que ficasse para mim, pois ela o achava muito bonito. Guardei. Às vezes relia admirando o amor de Helena S por Felipe Omar. Tenho sempre por perto por trazer lembranças de minha mãe e por achar uma verdadeira declaração de amor aos olhos mais treinados. Vou lhe passar o poema e logo entenderás.

 


Poema – “Para os de pouco treino”  Natureza 1- Mar

 

Há mar!!!...

Por todo lado...

Mar...

Amar...

O mar?  Infinito!

O´  Mar...

Com tua calmaria me brindas,

Sou Ar...

Percorro teu corpo,

Corro...

Te perco, ó mar,

Me perco, a Amar...

Agita-se, ondula-se,
Fico a passear em ti,

Sou brisa!

És Fé, és livre

És Fé-livre, o meu!

Felipe ... Omar

Ó mar!

Sou ar...

Negra incolor, indolor ?

Da brisa suave,

Na tua pele me faz vento,

Percorro-a   a´Amar

O Mar.....

Me abraças,

E para os olhos de pouco treino,

Mar revolto!

Me envolve,

Para os olhos de pouco treino,

Tornado!.

No mar... A amar...

Como me tocas, me pulsas,

Giro...

Para os olhos de pouco treino

Tempestade!

No abraço forte,brinco em teu corpo,

Para os olhos de pouco treino,

Ciclone!

Há mar... e há muito,

O coração do ar é feito de sal,

O sal do mar é “feito” do coração,

Ó mar!...Doce ...

Para os de pouco treino,

Salgado!

Do sal formam-se pedras

Mas seguimos unidos...

Quebrando as pedras fincadas no coração,

Para os  de pouco treino,

Trovão!

Segues Mar!

Segues fé e livre,

És meu Félipe,

Omar...Ó mar...

Sigo , sem giros, em arcos,

Para os de pouco treino

Há mar...

Para nós,

AMOR.

Meu Eterno infinito...

De sua incolor, Helena S.
Para os de pouco treino... Natureza.

 

Como podes observar querida Márcia, não poderia deixar de enviar-lhe este poema. O original ainda está comigo, não posso me desfazer por motivos sentimentais, mas estou enviando uma cópia autenticada, caso se interesse em publicar em seu site.


Estou realmente muito curiosa em saber mais sobre as memórias de Helena Schopenhauer.


Um grande beijo, e parabéns pela iniciativa tão nobre de cuidar dos escritos dessa figura tão intrigante e desconhecida do nosso passado.

 

Professora  Marta Soares.